CRÔNICA DE UM MINISTRO DE LOUVOR

Aqui eu chego em mais um domingo. Como sempre eu chego primeiro. Devidamente trajado para a ocasião, eu começo a organizar aquilo o que me diz respeito. Mais tarde o resto da equipe chega e começamos a nos preparar individualmente. Em seguida, chegam as recepcionistas, o pastor e as outras pessoas interessadas naquela atividade noturna. O sonoplasta também já vem chegando e começa a preparar o som pedindo-nos para testá-lo. Ele, então, toca músicas em volume ambiente. Eu sento em minha tão confortável poltrona esperando o culto começar. Fecho os olhos, faço uma oração.

Depois, ainda de olhos fechados eu perco-me eu meus pensamentos, que no momento, são regados a muito burburinho humano (as pessoas começar a chegar freneticamente) e à música de qualidade questionável. Mais ativo, eu começo a cumprimentar as pessoas. Crianças, adolescentes, jovens, adultos, idosos. Mulheres e homens. Alguns indivíduos eu nem conheço direito, outras em mal sei o nome. E têm também aquelas que não sabem mais o significado de um abraço apertado, um aperto de mão, um beijo sem lascívia, um mero sorriso carregado de boas intenções.

Após algum tempo o evento que é tão esperado naquela noite, enfim, começa. Eu e a minha equipe somos chamados. Tocamos as primeiras músicas exigindo toda a reverência necessária e também a devoção ao Eterno cultuado. A tão conhecida liturgia repete-se mais uma vez: músicas entre orações, leituras bíblicas, saudações, entrega de bens e vidas, finalizando com um sermão, as considerações finais e também a bênção apostólica.

O grupo musical o qual eu faço parte já sabe o que fazer: em uma chamada chega a nossa vez na celebração cristã. E é exatamente aqui que está o meu momento existencial.

Levantamo-nos de nossos lugares e pegamos os nossos instrumentos. Antes de costas, agora em frente as pessoas. Olhos nos olhos, face a face.

Os primeiros acordes são tocados mostrando o tom a ser cantado. A ministração é iniciada, olhos são fechados, uns se levantam, outros continuam sentados, alguns erguem as suas mãos. As vozes, então, se unem em adoração.

Mas segundo o nosso ponto de vista as coisas não são tão uniformes e belas assim. A musica atrai o meu corpo, o meu espiritual volta-se para Deus, mas os meus olhos e mente estão firmes nas pessoas.

Observo aquele casal que se encontra totalmente desinteressado no Transcendente, um encostado no outro, estão totalmente insensíveis ao seu redor, mas ardem ansiosamente um pelo outro (e é só isso apenas). Eu vejo também aquele carinho tão tímido que não se aplica ao padrões de beleza contemporâneos que são impostos, não devidamente compreendido em seus posicionamentos, um verdeiro puritano, com excelente testemunho, um exemplo a ser seguido. Mas ele tem um segredo: apaixonou-se pela garota que está localizada bem longe dele. Garota esta que está totalmente desinteressada no rapaz, mas bastante interessada no outro cara que não sabe onde fica Gênesis na Bíblia, mas que tem uma boa lábia, um corpo escultural, dá uma de “macho alfa”, mas com a consciência mais bem mais pequena que uma agulha. Tem também aquela mulher que sofre agressões em casa, sofre com a incredulidade do pseudomarido, com a infidelidade dele, com o seu comportamento reprovável, com a crise financeira em casa. Mas não há ninguém que saiba disto, ninguém que saber. Há aquela mão com o filho nas drogas, o baterista frenético (como esquecer dele?) A primeira canção enfim termina. A segunda começa. Esta, mais “alegre”.Eu volto, então, o meu olhar para as pessoas e eu vejo logo alguns sorrisos de pessoas sendo bastante edificadas. Com a sensação de dever cumprido eu louvo a Deus. Mas, eu vejo outros indivíduos ainda: aqueles que não entendem que o momento de música no culto a Deus requer a coletividade, a comunhão, aqueles que banalizam o momento isto com o seu comportamento. Existem também aquelas pessoas que estão divagando completamente, no que vão fazer durante a nova semana que se inicia. Decisões a tomar, contas a pagar, dinheiro para receber e perder, provas para estudar, entrevista de emprego, ansiedade.

Para finalizar, tocamos mais uma canção. Esta eu solo. Tomara Deus que eu faça direito Eu ensaiei tanto… É para a glória do Senhor e também para a edificação dos membros individuais do celeste corpo de Cristo. Eu me apego aos ensaios e a Deus. O meu desejo. é de engrandecê-lO, abençoar o público que está presente no salão. Eu começo a notar que algumas pessoas estão cansadas, não só querendo que paremos logo com as músicas, mas também que o culto chegue logo ao seu fim. Outras mostram-se abatidas, mas outras querem muito adorar, pois entendem o que são.

Um amém conclui a nossa participação. Guardamos os instrumentos. A liturgia prossegue normalmente.

Com a bênção apostólica o culto termina. Apressadamente as pessoas procuram o caminho de volta para os lares. Eu começo a pensar no próximo culto.

 

 

 

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