A DOUTRINA DA GRAÇA COMUM

“Para que sejais do vosso Pai que está nos céus; porque faz com que o seu sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos.”

(Mt. 05:45)

 

O apóstolo Paulo, interpretando a Queda, nos diz que o pecado de Eva e Adão que introduziu o pecado na Criação (Rm. 05:12) foi o suficiente para que todos os indivíduos que após o casal nascessem já viessem ao mundo mortos para Deus, distante Dele (Rm. 03:23) e em pecado. Podemos constatar isto com a descrição que Moisés faz da recente humanidade no Gênesis antes do evento do dilúvio: “Viu o Senhor que a maldade dos homens se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo o desígnio do seu coração.” (Gn. 06:05). Baseado nisto, o apóstolo traça um panorama bastante pessimista do ser humano caído em Rm. 03:10-18 que na verdade é uma versão estendida do que diz Davi em Sl. 36:01-04: “Há no coração do ímpio a voz da transgressão; não há o temor de Deus diante dos seus olhos, porque a transgressão o lisonjeia a seus olhos e lhe diz que a sua iniquidade não há de ser descoberta, nem detestada. As palavras de sua boca são malícia e dolo; abjurou o discernimento e a prática do bem. No seu leito maquina a perversidade, detém-se em caminho que não é bom, não se desapega do mal.” Ainda sobre o tema, Wayne Grudem diz o seguinte:

 

Quando Adão e Eva pecaram, tomaram-se réus da punição eterna e da separação de Deus (Gênesis 2:17). Do mesmo modo, hoje, quando os seres humanos pecam, eles se tornam sujeito à ira de Deus e à punição eterna: “o salário do pecado é a morte” (Romanos 6:23). Isso significa que, uma vez que as pessoas pecam, a justiça de Deus requer somente uma coisa – que elas sejam eternamente separadas de Deus, alienadas da possibilidade de experimentar qualquer bem da parte dEle, e que elas existam para sempre no inferno, recebendo eternamente apenas a Sua ira.

Na história da igreja, tal pensamento bíblico foi sistematizado e atualmente ele é conhecido como a Depravação Total, o ponta pé inicial da TULIP, a soteriologia calvinista.

Ora, o que a Bíblia nos diz é que a partir da desobediência de Eva e Adão a natureza do ser humano foi deturpada, de modo que a mesma consiste e fazer o mal e o mal fazer somente. Como diz Leandro Lima, da Igreja Presbiteriana do Brasil em Santo Amaro – São Paulo, “é pecar e pecar somente”. A natureza do ser humano é pecadora. O pregador reformado batista Charles H. Spurgeon em seu tão conhecido sermão “A Incapacidade Humana” compara isto a um leão, cujos instintos carnívoros não podem ser dissociados de sua figura felina. Paulo diz que por isto “não há quem busque a Deus” (Rm. 03:11b).

O holandês Abraham Kuyper, no livro Calvinismo, publicado pela editora Cultura Cristã, apresenta a consequência imediata de tal doutrina e faz uma observação interessantíssima a respeito dela:

 

O pecado coloca-nos diante de um dilema que em si mesmo é insolúvel. Se você vê o pecado como um veneno mortal, como inimizade contra Deus, como levando a condenação eterna, e se você descreve um pecador como sendo “totalmente incapaz de fazer qualquer bem e inclinado a todo mal”, e por causa disso salvável somente se Deus mudar o seu coração pela regeneração, então parece que, necessariamente, todas as pessoas incrédulas e não regeneradas devem ser homens maus e repulsivos. Mas isto está longe de ser nossa experiência na vida atual. Pelo contrário, o mundo incrédulo leva vantagem em muitas coisas.

 

Para Kuyper, de fato o pecado é o mal da humanidade, o que distancia o homem do seu Criador (no que se refere à salvação eterna), o que o torna totalmente reprovável diante Dele. Como consequência de tal pensamento, o ser humano é mal e, portanto, dele não pode vir nada de bom, belo, válido e verdadeiro. O que, é evidente, empiricamente, não condiz com as nossas experiências. E é exatamente aqui que nós chegamos ao coração, o assunto central desse texto que bombeia as ideias para todos os lados. Refiro-me aqui à doutrina da Graça Comum.

A teologia cristã entende Graça como o tal “favor imerecido”. Tudo aquilo que Deus nos dá que nós não merecemos. Tal conceito é amplamente utilizado na evangelização, nas discussões concernentes à Vida Eterna. Entende-se que o fato de Deus enviar ao mundo pecador e totalmente sujo o Seu filho unigênito – Jesus Cristo – para passar pelas nossas dores, morrendo em nosso lugar, concedendo a quem se arrepende de seus pecados e se entrega a Ele a eternidade junto a Deus, é um ato de Graça, é algo que Deus fez sem merecimento algum por parte de seus receptadores. É como os pais que dão a sua criança o melhor vídeo-game mesmo ele tirando notas baixas na escola, entende? A isto a fé cristã dá o nome de Graça.

Mas parece que a questão é muito mais ampla. Como Kuyper muito bem provocou, como pode o ser humano sendo tão errado continuar produzindo coisas boas e totalmente dignas de louvor e reconhecimento? Pensando nisto, teólogos tem se entregado a ampliar o conceito de Graça, dicotomizando-a em Graça Salvífica (ou específica/especial) e Graça Comum. Wayne Grudem, versando sobre o assunto em sua tão famosa Sistemática, explica-nos a diferença:

 

Podemos definir Graça Comum da seguinte maneira: Graça Comum é a Graça de Deus pela qual Ele dá às pessoas bênçãos imuneráveis que não são parte da Salvação. A palavra “comum” aqui significa algo que é dado a todos os homens e não é restrito aos crentes ou aos eleitos somente. Diferentemente da Graça Comum, a Graça [SALVÍFICA, ESPECÍFICA, ESPECIAL] de Deus que leva pessoas à Salvação é muitas vezes chamada “Graça Salvadora”. Naturalmente, quando falamos a respeito da “Graça Comum” e da “Graça Salvadora”, não estamos sugerindo que há duas diferentes espécies de graça no próprio Deus, mas apenas estamos dizendo que a Graça de Deus se manifesta de duas maneiras diferentes. A Graça Comum é diferente da Graça Salvadora quanto aos resultados (ela não traz salvação), seus destinatários (é dada aos crentes e descrentes igualmente) e sua fonte (ela não flui diretamente da obra expiatória de Cristo, visto que a morte dEle não obtém nenhuma medida de perdão para os descrentes e , portanto, nem os crentes nem os descrentes fazem jus às suas bênçãos). Contudo, sobre o último ponto, deve ser dito que a Graça Comum flui indiretamente da obra redentora de Cristo, porque o fato de Deus não julgar o mundo assim que o pecado entrou nele talvez seja apenas porque Ele planejou finalmente salvar alguns pecadores por meio da morte de Seu Filho.

 

Entendeu? Grudem nos diz que, pra começo de conversa, quando se fala em Graça Específica/Comum não se fala de dois tipos distintos de graça, mas sim de duas maneiras diferentes que a Graça se manifesta no mundo. A Graça Específica diz respeito à consequência que a Expiação traz na vida dos eleitos de Deus: a Salvação (Trata-se aqui da doutrina da Perseverança dos Santos, o P da TULIP) e a Graça Comum diz respeito a tudo o que ser humano tem e pode fazer de bom, mesmo sem reconhecer a Deus, ou seja os descrentes. Mais do que isto: a Graça Comum é “comum”, pois ela é destinada a todos os seres humanos, sejam eles cristãos ou não. Vejamos agora como a Graça Comum se manifesta e também o embasamento bíblico da mesma que contribuem para a militância da defesa da doutrina, pois afinal de contas, pensar em Graça Comum só se torna viável por causa de sua revelação no Texto Sagrado (Sola Scriptura!).

Vamos começar no que se refere à providência material. Veja só o sentimento do salmista no que se refere à riqueza alheia, mas especificamente, a riqueza material de quem é incrédulo em relação ao seu Criador: “eu invejava os arrogantes, ao ver a prosperidade dos perversos.” (Sl. 73:03). No versículo em destaque é possível concluir duas coisas: haviam pessoas prosperas: os perversos (uma leitura completa do salmo nos diz que os “perversos” são os rebeldes a Deus). Percebe-se aqui também o incomodo de Davi com relação aos réprobos que mesmo em tal condição viviam em prosperidade tal que o causava inveja. De onde vinha tal prosperidade? Deles mesmos? De sua inteligência própria? De sua força autônoma? De sua energia independente? Salomão nos dá a resposta: “Nada há melhor para o homem do que comer, beber e fazer que a sua alma goze o bem do seu trabalho. No entanto, vi também que isto vem da mão de Deus, pois, separado deste quem pode comer ou quem pode alegrar-se?” (Ec. 02:24e25). Todo o prazer do ser humano e as suas necessidades são supridas pelo próprio Criador e longe Deste não há ninguém que pode se alegrar. Veja: quantas pessoas todos os dias não comem, bebem, se divertem e longe de Deus estão por causa de seu pecado? E quem lhes proporciona tais prazeres? O próprio Deus! Em Apocalipse também lemos que todas as coisas foram criadas por Deus e por causa de Sua vontade todas as coisas vieram a existir (Apc. 04:11). O próprio Davi também reconhece o cuidado de Deus para com todas as pessoas indiscriminadamente: “O Senhor é bom para todos e as suas ternas misericórdias permeiam todas as suas obras. (…) O Senhor sustém os que vacilam e apruma todos os prostrados. Em ti esperam os olhos de todos, e tu, a seu tempo, lhes dás o alimento.”(Sl. 145:09,14e15). Existe ainda a mensagem dada pelo próprio Jesus Cristo com relação à ansiedade demasiada pelas coisas da vida no conhecido Sermão da Montanha:

 

Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber, nem pelo vosso corpo quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais importante que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes? Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo o vosso Pai celeste as sustenta. Porventura, não valeis vós muito mais do que as aves? Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso de sua vida? E por que andais ansiosos quanto ao vestuário? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham, nem fiam. Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como qualquer deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo que hoje existe a amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós outros, homens de pequena fé? Portanto, nos vós inquieteis dizendo: que comeremos? Que beberemos? Ou: com que nos vestiremos? Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas; buscai, pois em primeiro lugar o seu reino e a sua justiça e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados, basta ao dia o seu próprio mal.

(Mt. 06:25-34)

 

Jesus utiliza aqui os muitos exemplos da própria criação de Seu Pai a fim de fazer uma analogia referente ao cuidado Dele a todas as pessoas. Agora pense: são apenas os indivíduos justificados que são alimentados pelo Pai como as aves do céu e tem a sua necessidade de vestuário suprida? Temos aqui mais um exemplo da Graça Comum sendo manifesta a todas as pessoas.

Como se pode notar, é unicamente Deus que sustenta todas as suas criaturas, vestindo-as, alimentando-as, enriquecendo-as, dando-lhes emprego (Gn. 03:17), vitalidade. E não é preciso se submeter a Ele para que isto aconteça, pois independente disto, Ele continua sendo o único Deus soberano (Soli Deo Gloria!) exercendo a sua toda boa, perfeita e agradável vontade (Rm. 12:02) não importando que elas sejam genuinamente cristãs e isto se revela também em Seu cuidado sobre todas as suas criaturas. Assim sendo, tudo o que o ser humano possa ter, e a capacidade para conseguir vêm do próprio Deus. É por isto que muitos ateus, adeptos das mais variadas religiões e não cristãos de forma geral conseguem ter uma boa vida, são bem alimentados, são pessoas de posse, de alto valor aquisitivo muitas vezes, são bem instruídos, são aprovados em vestibulares, concursos, são muito bem empregados… Contudo, isto não vem deles de maneira alguma. Vem do próprio Deus sobre todos. É a Sua tão grandiosa Graça Comum e é preciso que reconheçamos isto, pois como disse Renato Russo, parece que “ninguém Lhe diz ao menos obrigado”.

Continuando, a Graça Comum de Deus também é manifesta no progresso cientifico. Pense agora quantas invenções extremamente úteis e indispensáveis foram criadas. Foram todas elas criadas por cristãos? É evidente que não. Sobre isto, Grudem nos diz

A graça comum de Deus na esfera intelectual também resulta na capacidade de perceber e distinguir a verdade do erro, e crescimento de experiência em conhecimento que pode ser utilizada na investigação do universo e da tarefa de dominar a terra. Isso significa que toda a ciência e tecnologia para desenvolver todos os não-cristãos é um resultado da graça comum, permitindo-lhes fazer descobertas incríveis e invenções para desenvolver os recursos terrestres de bens materiais, muitos, para produzir e distribuir os recursos e ser proficientes em seu trabalho produtivo. Em termos práticos isto significa que cada vez que entramos em um supermercado ou dirigir um carro ou uma casa, devemos lembrar que estamos experimentando os resultados da abundante graça comum de Deus derramado para o enriquecimento da humanidade.

 

A Graça Comum de Deus também se manifesta em produções artísticas e culturais afins. Quantas vezes você leu algo, ouviu uma música e logo em seguida pensou: “caramba, como isto é idêntico ao Cristianismo!”. Pois é, como já é possível ver, parece que não é preciso ser crente para produzir coisas boas e que até mesmo glorificam a Deus. Alguém certa vez já disse que “ser usado por Deus não significa ser salvo”. Que grande verdade! Deus pode usar até mais os indivíduos que são rebeldes para Consigo para produzir conteúdo que O glorifique, mesmo eles não querendo ou o fazendo inconscientemente. Vejamos o que Kuyper diz a respeito da beleza oriunda do própria Deus presente em outros arraiais:

 

Tesouros preciosos têm vindo a nós da velha civilização pagã. Em Platão vocês encontram páginas as quais devoram. Cícero fascina vocês, os leva adiante por seu tom nobre e desperta em você santos sentimentos. E se considerarem o seu próprio ambiente, aquilo que lhes é relatado e o que vocês deduzem do estado e da produções literária de descrentes professos, quanto há que os atrai, com que vocês simpatizam e admiram. Não é exclusivamente o brilho do gênio ou o esplendor do talento que excita seu prazer nas palavras e ações de incrédulos, mas muitas vezes é sua beleza de caráter, seu zelo, sua devoção, seu amor, sua fraqueza, sua fidelidade e seu senso de honestidade. É isso mesmo, não podemos deixar de mencionar, frequentemente vocês nutrem o desejo de que certos crentes pudessem ter mais desta atratividade e quem dentre nós não tem sido ocasionalmente envergonhados ao ser confrontados com as chamadas “virtudes dos pagãos”?

Em sua fala, Abraham denúncia que muitas coisas dignas de louvor tem surgido a partir de indivíduos que não professam a fé cristã e nós, cristãos, na grande maioria das vezes apreciamos o seu trabalho e sentimos a falta de pessoas genuinamente cristãs envolvidas em tais questões.  Outra coisa: quando se fala na Graça Comum manifesta em produções artísticas, floresce uma arcaica polêmica acerca da relação do cristão com a Arte e a Cultura. Não é o tema desse texto, mas uma breve observação faz-se necessária.

Ora, uma vez sendo cientes de que a bondade de Deus tem se manifestada no meio daqueles que voluntariamente O rejeitam, inclusive no meio artístico, fazendo com que verdadeiras pérolas preciosas têm surgido entre os “mundanos”, o que impede a relação do cristão com produções artísticas e culturais produzidas por indivíduos que não professam a fé cristã? É preciso se relacionar com tais reconhecendo as verdades proferidas por eles como sendo oriundas do próprio Deus. Não são só cristãos que escrevem grandes poemas, belas canções… Encontramos muita coisa boa e que pode, inclusive alimentar a nossa fé, com diferentes conteúdos não cristãos. Usando da tristeza de Kuyper, até mesmo muito mais do que ambientes declaradamente evangélicos.

Falando especificadamente sobre a questão da música (o ponto mais polêmico), Ricardo Gondim, em seu livro É Proibido: o que a Bíblia permite e a igreja proíbe, que é publicada pela Mundo Cristão, declara na obra:

 

Uma pessoa não convertida pode produzir o que for nobre, que leve à reflexão, divirta ou edifique? A resposta obviamente é sim. Um erudito como Rui Barbosa, embora nunca tenha feito parte de uma igreja evangélica, escreveu artigos e ensaios sobre o direito e a cidadania tão dignos que servem de ilustração, inclusive, para um sermão. Um estadista, como Winston Churchil pôde nos brindar com um discurso tão verdadeiro, que todos, inclusive os pastores, devem aplaudir. Um poeta como Carlos Drummond de Andrade, embora um ateu professo, deixou-nos um legado poético espetacular. A teologia da queda não propõe que os descendentes de Adão sejam incapazes de boas ações. A alienação do pecado não anula completamente a imagem de Deus nos homens. Todos os seres humanos, mesmo os mais vis, ainda carregam traços do Criador. Isto os habilita a praticar boas obras. A prostituta Raabe ajudou os espias em Jerico mesmo sem ter completo conhecimento de Jeová. Ciro, o rei da Pérsia, foi usado como instrumento de Deus, mesmo sem qualquer indício de que ele jamais tenha se rendido a Deus como Senhor de sua vida. Devemos nos lembrar do samaritano que ajudou o moribundo na beira do caminho entre Jerusalém e Jerico. Na concepção dos judeus, somente os verdadeiros filhos de Abraão seriam capazes de agir com dignidade. Porém, Cristo dá o troféu da bondade a um estranho. Mais tarde, Cristo afirma que os filhos das trevas são, muitas vezes, mais sábios que os filhos da luz (Lc. 16:8). Deduz-se que um juiz não necessita converter-se para conduzir um tribunal com justiça. Um fiscal pode, mesmo nunca tendo experimentado o novo nascimento, manter-se íntegro. Um artista é capaz de pintar, compor, escrever ou esculpir obras de arte mesmo sem ter se submetido ao senhorio de Cristo. Na história da humanidade houve grandes compositores que escreveram e nos encantaram com peças belíssimas. Muitos deles não eram cristãos convertidos. Mozart, Tchaikovsky, Beethoven, dotados de um gênio musical ímpar, não possuíam uma vida consagrada a Deus. A imagem do Criador neles é que transbordava em excelência musical. Michelangelo, Rodin, e tantos outros escultores conseguiram dar vida e significado às pedras brutas de mármore, metais contorcidos e blocos de granito, porque a “Graça Comum” habilitava os. Arquitetos, romancistas, decoradores, pintores e tantos outros homens e mulheres presenteiam-nos constantemente com suas obras de arte, porque Deus faz com que sua graça seja derramada tanto sobre os justos como sobre os injustos. Quando alguém declara que não ouve “música do mundo”, está afirmando que não reconhece nenhuma pessoa, a não ser os convertidos, com a capacidade de produzir um texto, uma música ou qualquer expressão artística louvável. Essa posição é no mínimo incoerente. Pois essa mesma pessoa lê jornais, revistas, ouve o noticiário e, na escola, estuda através de livros escritos por pessoas não-cristãs.

 

Falando como a Graça Comum Divina está presente na “esfera criativa”, Wayne Grudem afirma o seguinte:

 

Deus permitiu que uma boa medida da habilidade nas áreas de arte e música, bem como em outros campos em que eles podem expressar a criatividade e habilidade, tais como atletismo, culinária, escrita e assim por diante. Além disso, Deus nos dá a capacidade de apreciar a beleza em muitas áreas da vida. Neste, como também no. Física e intelectual, as bênçãos da graça comum às vezes é conferido aos incrédulos ainda mais abundante do que os crentes Mas em todos os casos é resultado da graça de Deus.

Agora, retomando o argumento de Gondim, afirmar (e muitas vezes odiar) a ausência de consumo de produção declaradamente não cristã chega a ser uma grande hipocrisia, pois até mesmo o individuo mais religioso, querendo ou não, consome o que não é produzido por cristãos. Utiliza o que não é produzido por indivíduos cristãos. Come o que não é produzido por cristãos. Assiste aquilo que não é desenvolvido por indivíduos cristãos. Ler aquilo que não é escrito por cristãos, torce por atletas não cristãos… Enfim, a lista é imensa, o que demonstra muitas vezes a nossa ignorância, mas também o cuidado do Criador e o Seu amor em entregar nas mãos sujas de todos os seres humanos, poder criativo e intelectual para quem O rejeita diariamente.

Finalmente, a Graça Comum de Deus também se manifesta na diversidade religiosa. “Nenhum movimento, por mais que o consideremos equivocado, deixa de ter algum ponto de verdade”, diz Augustus Nicodemus Gomes Lopes, importante pastor e teólogo brasileiro. E sem dúvida temos aprendido muito com adeptos de outras religiões. Como não notar o fervor neo e pentecostal? Como não se surpreender com o empenho encontrado entre quem é adepto do Catolicismo e a sua fidelidade em cumprir as suas promessas? O que dizer da paz budista? Do pacifismo hindu? Com certeza são questões a se considerar. O apóstolo Paulo chegando a Atenas ao se encontrar com os seus filósofos, apesar de toda a sua revolta com a idolatrai presente naquele local, ele não chega quebrando as imagens da religiosidade alheia, batendo em todo mundo, proferindo xingamentos. Não! Ele não faz isto. As primeiras exatas palavras ao começar o seu discurso foram: “Senhores atenienses! Em tudo vos vejo acentuadamente religioso; porque, passando e observando os objetos de vosso culto, encontrei também um altar no qual está escrito: AO DEUS DESCONHECIDO. Pois esse que adorais sem conhecer é precisamente aquele que eu vos anuncio.” (At. 17:22e23). Perceba que aqui, Paulo se apropria dos elementos da religião ateniense, os elogia e em seguida ele se apropria daqueles para iniciar a evangelização. “Paulo, mesmo quando se fala de pessoas segurando falsas idéias religiosas poderia encontrar um ponto de contacto do conhecimento da existência de Deus, como fez ao falar com os filósofos atenienses”, diz Wayne Grudem.

Vemos em religiões e movimentos não cristãos valores oriundos especificadamente do Cristianismo e sem Ele tais valores seriam inviáveis. Na verdade eles só existem, porque o Cristianismo existe. Contudo o pecado distorceu tais pensamentos, fazendo, assim com que o ser humano caído desviasse o foco da adoração (consegue notar a antítese em evidência?). É exatamente o que diz Paulo de Tarso escreve aos Romanos: tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças (…) mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível (…) pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura ao invés do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém!” (Rm. 01:21, 23, 25). Sobre este texto, Wayne Grudem declara: “Isto significa que há um sentido da existência de Deus e muitas vezes com fome de conhecer a Deus que ele autorizados a permanecer nos corações das pessoas, embora isso geralmente resulta em muitas religiões da criação humana.” . Não se fala aqui em ecumenismo, como é possível observar, se fala na presença constante dos princípios genuinamente cristãos espalhados por onde menos se imagina, contudo o pecado acaba por ofuscar e impedir o reconhecimento ao genuíno Autor de tais princípios.

Finalmente, conclui-se o presente texto a firme convicção que a Graça transcende todos os nossos limites humanos, pois mesmos nós insistindo em desobedecer a Deus, Ele continua nos amando e não tão somente ao enviar o Seu filho unigênito em nosso lugar, mas nos cuidando, nos alimentando, nos dando a criatividade, a sensibilidade para reconhecer a beleza, pois como escreve Tiago: “toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em que não pode existir variação ou sombra de mudança.” (Tg. 01:17).

 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

GONDIM, Ricardo. É PROIBIDO: o que a Bíblia permite e a igreja proíbe. São Paulo – SP: Editora Mundo Cristão, S/A.

GRUDEM, Wayne. TEOLOGIA SISTEMÁTICA: atual e exaustiva. Edição Revisada. Editora Vida Nova, 2009.

KUYPER, Abrham. CALVINISMO. 2° edição. São Paulo – SP, Editora Cultura Cristã, 2015.

LIMA, Leandro. 5 PONTOS DO CALVINISMO, vol. 01. Igreja Presbiteriana do Brasil em Santo Amaro – SP.                                                                                                                     Disponível em: <http://www.ipsantoamaro.com.br/pregacoes/series/20-5-pontos-do-calvinismo.html&gt;.

LOPES, Augustus Nicodemus Gomes. ESPIRITUALIDADE. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=wfOqZSCkEVI&gt;.

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