O DUALISMO MUSICAL RELIGIOSO: a ponta do iceberg

A proposta aqui do blog é tratar a vida cristã não como um simples detalhe da vida de seus adeptos, mas sim como toda a vida. Tal proposta encontra-se claramente no próprio slogan do blog – “Cristianismo Integral” – em seu nome – “#MQD – Mais que Domingo” – e também mais longamente na página “Sobre”, que fala um pouco da visão do site. Doutrinariamente, existe o apego a algumas tradições, majoritariamente a Reformada (e é a primeira vez que eu confesso isto) e as doutrinas da Queda, Graça Comum, do Pecado, da Criação e por último, mas não menos importante, a da Soberania Exaustiva de Deus.

A proposta aqui do blog também está implícita em algumas postagens que aqui estão. Eu penso que a principal característica daqui é o desapego total a qualquer pensamento religioso sectário, farisaico e dualístico. Assim sendo, o mundo e as produções humanas não são vistas em contraposição com a fé cristã, mas, muito pelo contrário, há a incessante busca por Deus na cultura, seja ela qual for. Este pensamento surge em protesto a uma onda de ideias religiosas que buscam uma separação entre o sagrado e o profano, santificando o que há no templo e demonizando o que está fora dele, parecendo como se Deus se manifesta apenas no domingo à noite e na música gospel. E por falar em música…

O principal exemplo de tal pensamento dualista e retrógrado (retrógrado, pois ele remonta à Igreja Católica medieval que separava o sagrado do profano como duas esferas distintas e também incomunicáveis, punindo cruelmente o profano. Esta situação estava presente inclusive dentro do contexto da Reforma, onde o templo religioso era visto praticamente como um “mini céu” e a palavra do papa era “o próprio Deus falando”.) com certeza é a balela de que a “música do mundo” (entende-se aqui “música do mundo” como qualquer produção musical não religiosa, de origem não cristã e também não confessional) é do Diabo e cristãs e cristãos não devem usufruí-la. Ora, e música instrumental? E os clássicos da música clássica? A música histórica, barroca? As músicas que remetem a princípios bíblicos ou que simplesmente não fazem nenhum ataque a religião? Como fica? Então, respostas pouco inteligentes são ouvidas. Mas já foi bem pior no passado. A história nos diz que instrumentos como violão, guitarra, sintetizadores, bateria, instrumentos de percussão e outros pouco convencionais, conhecidos e utilizados deveriam manter-se distantes completamente do ajuntamento dos santos na congregação, sobrando apenas o órgão e o piano (eu não estou aqui denegrindo tais instrumentos. Eu reconheço a sua importância e utilizações no culto e até mesmo eu defendo o seu uso). Ouvimos pessoas nos dizerem que líderes proibiam a audição e visualização de algumas obras (algumas até mesmo religiosas), correndo o risco de sérias punições, provocando um verdadeiro tráfico ilegal de música boa. A histórica Banda Êxodus, autora da icônica “Nos galhos secos” sofreu gigantescas perseguições, por ser a primeira banda de rock no Brasil formada por pessoas que confessavam a sua inclinação ao Cristianismo, sendo até mesmo expulsos de igrejas, chamando, inclusive a atenção da revista Veja no escuro período da Ditadura Militar que fez uma matéria com os rapazes. A Banda Catedral, mesmo enquanto produzia para o nicho evangélico não deixava de ser crucificada e quando anunciou a sua interação entre o evangélico e não evangélico participando de diversos círculos não cristãos, mas sem abandonar os princípios bíblicos, aí o problema aumentou. Boicotes, mentiras e polêmicas, comparações com outras bandas por parte de religiosos e outras pessoas foram o preço que Kim e a sua trupe tiveram que carregar, fazendo com que a Banda tivesse uma rotina de esclarecimentos sem fim e até hoje eles passam por constrangimentos, mas quando começaram eles foram a primeira cristã hibrida em dois circuitos diferentes, fazendo-a pioneira e histórica para a música nacional. Até mesmo quando o irmão de Kim faleceu tragicamente em um acidente automotivo as críticas não cessaram. Oficina G3 e Novo Som estranharam ao cantarem com recursos vocais nunca antes utilizados por outros artistas juntamente com pedais duplos, efeitos, distorções exagerados, etc. Mais tarde a música evangélica polemizou mais ao sair da homogeneidade, adotando outros ritmos como Funk, Samba, Música Eletrônica, etc. O clamor que pedia a renovação iniciado dentro do revolucionário movimento gospel dos Jesus Freaks (não tem nada haver com o Lucinho Barreto, gente!) nos Estados Unidos da América chegava a passos lentos no Brasil. Foi mais ou menos neste mesmo período que as teorias de conspiração evangélicas envolvendo a Disney, a Xuxa, o 11 de setembro, a maçonaria, começaram a explodir só aumentando o dualismo e a irrelevância cristã ante os profundos desafios culturais de seu tempo. Enfim, são histórias que só evangélicas e evangélicos conhecem. Estes problemas apenas evidenciam um sério problema que, infelizmente (mas infelizmente mesmo!), ainda é enfrentada hoje na esfera cristã nacional. Por mais que progressos tenham ocorrido nesta área, ainda existe muito (muito mesmo) o que desbravar na espinhosa e também densa floresta religiosa.

Muitas pessoas ainda passam, tristemente, por uma grande crise interna esquizofrênica, dualista, anti-bíblica e, portanto, anti-cristã ao pensarem na relação entre Cristianismo, Cultura, Arte, Fé, Deus, Sociedade, Pecado, Graça. É um medo gigantesco, uma ignorância das grandes, um patrulhamento ideológico esquisito e sem razão. Os problemas que enfrentamos com as canções ditas seculares e outras coisas mais que longe estão do contexto eclesiástico não são somente um moralismo, mas as evidências de um problema maior, a ponta de um iceberg: a problemática do relacionamento entre Cristianismo e Cultura e o afastamento do que não é sagrado. O problema da perseguição contra a música não religiosa não é algo que é corretamente explicado por si só, mas corresponde a menor parte de um problema mais sério e também antigo.

Hoje existe a necessidade do envolvimento participativo e relacional entre cristãos e cultura como parte de uma perspectiva cristã integral principalmente ante ao contexto contemporâneo em que estamos. O iceberg volumoso e profundo do problema do cristão com as práticas culturais precisam urgentemente ser superadas, o iceberg precisa derreter o quanto antes. Para isto, a leitura de alguns autores, a quebra do dualismo, a vivência cristã integral, o voltar a algumas doutrinas esquecidas e uma espiritualidade mais profunda faze-se necessárias. Queira Deus que o iceberg enfim derreta e que os cristãos não sejam mais uma subcultura que é altamente marginalizada, ma que passem logo a serem verdadeiros integrantes protagonistas da sociedade e também altamente indispensáveis a ela.

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