SOBRE A CONCEPÇÃO RELIGIOSA DA CIÊNCIA

FRIORIN, José Luiz (Org.). INTRODUÇÃO À LINGUÍSTICA: princípios de análise. 4ª ed, volume 02. São Paulo – SP: Editora Contexto, 2005.

 

Frequentemente na universidade se tem uma concepção religiosa da ciência e não um ponto de vista verdadeiramente científico a respeito dela. O discurso religioso é o discurso que pretende explicar tudo, donde viemos, para onde vamos, qual o sentido da vida, por que sofremos, qual é a origem de tudo. Ao mesmo tempo, pretende-se absolutamente verdadeiro e, por isso, intangível. A ele deve-se aderir pela fé. Ao contrário, o discurso científico constrói modelos que explicam parte da realidade. Por isso, ele não chega à verdade absoluta e eterna, mas a consensos parciais sobre as explicações que dá para certos fenômenos. Ele é sempre uma aproximação da realidade. A ciência tem sempre compromisso com o real e, por isso, sua validade precisa ser verificada. Não se adere ao discurso cientifico pela fé, mas pelo conhecimento. Como a ciência não chega à verdade, progride sempre, é sempre mutável. Ao afirmar que muitas vezes se tem uma concepção religiosa da ciência, estamos dizendo que há frequentemente uma mitificação, que não deixa de ser uma mistificação, de certas teorias, levando a crer que elas são a verdade, enquanto outras são o erro e, por isso, merecem ser anatematizadas. Criticam-se teorias por elas não explicarem o que não pretendem explicar. Ora, batemo-nos fortemente contra isso, é preciso que o aluno saiba que a contradição é inerente ao fazer científico. (…) O aluno deve perceber que a ciência é constituída de uma multiplicidade de pontos de vista e que cada um aporta uma parcela de conhecimento da realidade. Escolhemos, por diferentes razões, um deles para trabalhar, discutimos o ponto de vista alheio, mostrando suas limitações e seus problemas, mas não condenamos seus partidários à “fogueira”, porque a ciência precisa do debate, já que ela não se constitui de dogmas proclamados ex cathedra.

Uma outra característica da ciência é o fato de que ela não reproduz a realidade, mas exige dela um modelo. (…) Ela só tem valor na medida em que é um mapa e, portanto, permite abarcar, de um certo ponto de vista, a totalidade do território. O que reproduz o real em toda sua complexidade é a descrição, no sentido vulgar da palavra. Por isso, são descabidas as críticas feitas aos modelos científicos de que eles não dão conta de todos os matizes do objeto. Os que assim pensam estão num estágio pré-científico e, numa ideologia pré Marx e pré Freud, imaginam que cada objeto criado pelo homem seja singular e que, portanto, ao analista só cabe reproduzi-lo.

Nosso propósito é levar os estudantes a entrar no universo de uma análise com vocação cientifica, mostrando a eles que a ciência não é a verdade, mas é uma explicação provisória da realidade, e que o debate, a contradição e o conflito são inerentes ao fazer científico.

 São Paulo, 3 de outubro de 2002

 


SOBRE O AUTOR:

O texto acima é o trecho do prefácio da obra “Introdução à Linguística: princípios de análise” (4ª ed, vol. 02, São Paulo – SP: Editora Contexto, 2005) que foi escrito pelo saudosíssimo professor José Luiz Fiorin, que é professor do Departamento de Linguística da Universidade de São Paulo (USP) e Especialista em estudo do Discurso e do texto, tendo publicado inúmeros textos que tratam a respeito dos estudos linguísticos no Brasil.

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